segunda-feira, 29 de novembro de 2010

DOIS IRMÃOS (Daniel Burman, 2010)

É fato que qualquer filme argentino me faz sair de casa, mas vou com mais convicção ainda ver os do Daniel Burman, que conquistou minha carteirinha de fã depois de Abraços Partidos (muito bom) e Ninho Vazio (imperdível).

Bom, todas as resenhas e o trailer já contaram a história, então posso repetir sem ser spoiler. Susana (Graciela Borges) é uma perua neurótica, solteirona, grosseira e desbocada. Marco (Antonio Gasalla) é um coitadinho abnegado, amargo e meio apático que abriu mão de uma porção de coisas pra cuidar da chata da mãe. Neneca (a mãe) morre no começo do filme pra deixar os dois irmãos solitários no meio de uma terceira idade que não imaginavam para si, olhando um pra cara do outro, tendo que enfrentar as mil frustrações pessoais e os dramas familiares que são tão antigos que parecem nem ter jeito mais.

Falando assim parece melodramático, mas a dose certa de humor e a maravilhosa atuação da dupla, principalmente o Gasalla, que está genial, seguram o caricato até onde dá. Até onde dá, repito, porque lá pelo meião do filme, comecei a ficar incomodada com a pancadaria emocional da descontrolada da Susana, e o Marquito reagindo com aquele olhar de peixe morto e nada mais, e achei que nesse momento a história perdeu um pouco da naturalidade convincente dos filmes do Burman, e saracoteei na cadeira uns belos 10 minutos (sinal máximo de que não estou gostando).

Mas, para compensar (e compensou bem), os 20 minutos finais do filme são lindos, delicados, otimistas e terminam do jeito mais gracioso que dá essa história tão real que é difícil colocar um ponto final que não pareça novela.

Devo dizer que foi também minha reconciliação com o Uruguai, que visitei uma só vez na vida e fui embora resmungando (também por que estava numa fase de humor tão canino que não teria gostado nem do Rio de Janeiro ensolarado com o mar claro). Fazer as pazes com um lugar é quase tão importante quanto fazer as pazes com uma pessoa, não é, gente?

Ah, e haja o que houver, mesmo se estiver doido pra fazer pipi, não levante da cadeira antes dos créditos terminarem total. Fica a dica.

domingo, 7 de novembro de 2010

LUGARES ESTRANHOS E QUIETOS (Wim Wenders)

E pra você que ainda não enjoou do Wim Wenders, vale a pena dar uma passada no MASP pra ver a expo Lugares estranhos e quietos, com umas 20 e poucas fotografias de suas andanças por aí, preferindo becos e ruazinhas esquisitas, como ele mesmo explica num texto delicioso que abre a exposição.

As ampliações são grandes o suficiente pra animar qualquer um que goste de fotografia, mas legal mesmo é aquele olhar que encontra o lugar que traduz o que a gente tem de sombrio, triste e desolado.

Tem bastante coisa bonita.

Vale o rolê!

Serviço - Lugares, estranhos e quietos, de Wim Wenders. Masp (av. Paulista, 1578). De 21 de outubro a 16 de janeiro de 2011. Tel. (11) 3251-5644. Terças, quartas, sextas, sábados, domingos e feriados, das 11h às 18h; quintas, das 11h às 20h. A bilheteria fecha uma hora antes. Ingressos: R$ 15 (grátis nas terças).

terça-feira, 2 de novembro de 2010

FILMES DA VIDA DO WIM WENDERS (Cinemateca, 34a Mostra de Cinema SP)

O que é melhor do que assistir Asas do Desejo na Cinemateca? O Wim Wenders subir no palquinho depois e ficar 2 horas falando pra platéia! Mais uma daquelas felizes noites que você está no-lugar-certo-na-hora-certa, e sem saber. Fui só pro filme e levei o Wim de lambuja.

O pessoal da mostra inventou uma coisa que chama “Os filmes da minha vida”, e os diretores passaram a semana falando sobre suas listinhas de ouro. Ideia bacana que logo mais deve aparecer publicada por aí.

Sabe aquele mito que todo diretor de cinema é em essência um contador de histórias? Não curto muito o clichê, mas devo admitir que o Wim Wenders, além de tipão e simpático, seqüestrou a atenção de quem tava lá, que nem piscou pra ouvi-lo falar de quando a avó lia as histórias acompanhando com o dedo as palavras nos livros (e assim ele aprendeu a ler), e como ele era apaixonado pelos espaços entre as linhas, que era onde a imaginação podia construir o resto que as palavras não podiam.

Não fiquei até o fim (ai, gente, carne e osso, né), mas anotei alguns dos filmes da vida dele, pra quem interessar possa:

The Rules of The Game (Jean Renoir, 1939)

The Man of the West (Anthony Mann, 1958)

Wavelenght (Michael Snow, 1967)

Blow-up (Antonioni, 1966)

Easy rider (Dennis Hopper, 1969)

Tokyo Story (Yasujiro Ozu, 1953)

The Salt of Earth (Binderman, 1954)

Stranger Than Paradise (Jim Jarmusch, 1984)

Only Angels Have Wings (Howard Hawks, 1939)

ASAS DO DESEJO (Wim Wenders, 1987)

A Mostra tem essa deliciosa mania de trazer clássicos pra reexibir pros pobres mortais que perderam ou não tinham idade suficiente pra ver essas maravilhas na telona. Porque cinema é na sala de cinema, né, gente? Você pode ter uma TV de mil polegadas e um surround com mil caixas de som, mas, como já disse o André Barcinski, ver filme em casa é como ir a restaurante em shopping: a comida pode até ser boa, mas a experiência nunca será completa.

Falando em experiência completa, fui assistir Asas do Desejo na Cinemateca, certamente minha sala preferida entre todas dessa cidade. A Mostra sempre faz um afago no Wim, mas dessa vez a coisa foi séria: além de Asas do Desejo, exibiram Paris, Texas, O filme de Nick e Até o Fim do Mundo. Ele retribui o afago e fica por aqui a semana inteira, dando o simpático ar de sua graça por aí.

Não precisa dizer muito desse filme que foi um dos mais importantes da década de 80, o mais bonito do Wim e um dos mais poéticos que já vi.

Vocês já sabem a história dos anjos que ficam por aí tentando dar uma ajudinha aos perturbados seres humanos, com aquele turbilhão de pensamentos narrados em off, tão parecidos com os nossos que até dá uma tristezinha doída. Um dos anjos se apaixona por uma trapezista e decide existir: a partir daí o filme fica colorido, e Damiel (Bruno Ganz) vai ter que se virar pra encontrar e convencer Marion desse amor todo, o que não é difícil.

Esse parágrafo resume a história, mas como todo filme inesquecível, a história é muito pouco do filme, que é uma obra-prima de fotografia, ritmo e lirismo.

É um dos retratos que mais amo de uma Berlim que só conheço via lente dos diretores: becos, terrenos baldios, ruínas, reconstrução e modernidade.

E sim, o enredo é quase o mesmo do água com açúcar Cidade dos Anjos (com a Meg Ryan e o Nicolas Cage). Gostei desse filmezinho quando vi, lá pelos meus 15 anos, mas quando vi Asas do Desejo não entendi pra quê refilmar uma história que foi filmada de maneira definitiva, mil vezes mais moderna apesar de ser uma década mais velha e arrebatadora o suficiente pra ser reexebida com freqüência, e não refilmada. Vai saber.

Se você gosta de Nick Cave & The Seeds, babe com as 3 músicas ao vivo que eles fazem no filme, inclusive na cena que o lindo do Bruno Ganz encarnado vai procurar sua Marion numa balada berlinense modernosa e decadente.

E se não deu pra ver no cinemão: vale DVD, computador, telinha de notebook, qualquer coisa. Olha que nem todo filme merece.

O GAROTO DE LIVERPOOL (Sam Taylor Wood, 2010)

É muito difícil esperar de uma beatleira (dizer beatlemaníaco anda tão pedante hoje em dia, não?) num mês em que John faria 70 e Paul vem pra cá fazer shows depois de 17 anos (pista prime na mão) distanciamento necessário pra dizer algo imparcial de O Garoto de Liverpool. Mas vai lá.

Mesmo sabendo que é um erro estratégico ver filmes na Mostra que em 2 ou 3 meses estarão em circuito, e perder coisas bacanas que nunca virão pra cá, nem em DVD, não agüentei o faniquito de esperar até dezembro e comprei meus ingressinhos pra sessão da meia-noite, na sexta, primeiro dia da maratona.

A Sam Taylor Wood estréia na ficção com esse filme bonitinho que mostra um pedaço da vida do Lennon “precursora” de tudo o que vai acontecer depois: a adolescência meio rebelde, a morte do tio, o reencontro com a mãe, a descoberta de Elvis, a descoberta do rock, as bandas, a mulherada e por aí vai. Uma história sem nenhuma grande novidade, mas desce muito bem contada de um jeito assim delicado, bem filmada e com uma trilha deliciosa (poucas músicas dos Beatles, pra quem vai atrás disso é melhor ouvir em casa).

Pra mim o detalhe que faz toda a diferença no filme é o fato que o John conhece e convive bastante tempo com a mãe, Julia, nossa anti-heroína sea-shell-eyes-windy-smile charmosa, libertária, problemática e que, de acordo com o roteiro, é quem de fato enfia a música e o rock cuca a dentro dele. Juro que não sabia ou não lembrava, e na minha história imaginária dos Beatles e do John, toda vez que ele cantava you had me but i never had you, estávamos falando de um molecote de 6 anos que levou um pé na bunda de mami e nunca mais a viu!

Em torno desse nó gira o filme todo, e se você já sabe o que acontece, ótimo, porque não vou contar e estragar o prazer dos que não sabem!

Também nesse meio tempo, aparece Paul na vida de John. Um é maluco, charmosão, farrista, metido a besta. O outro é certinho, magricela, nerd e só quer saber de música. Brigam feito cão e gato, mas se completam. E todo mundo sabe o resto da história.

O Aaron Johnson como John está uma doçura, apesar de muita gente achar que falta um pouco mais de rebeldia e excentricidade, mas vá lá, está no tom do filme, e eu adorei. Thomas Sangster faz um Paul preciso, esquisitinho e adorável, Anne Marie Duff é uma Julia tão charmosa e perturbada que você nem fica mais tão puto por ela ter feito tanta lambança e a Kristin Scott Thomas, impecável como a durona mas fofa tia Mimi que nunca saiu do coração do John.

Pros fanáticos das biografias, o filme foi baseado no livro da irmã do Lennon, Julia Baird, Imagine This: Growing Up with my Brother John Lennon.

Eu adoro filme que pega uma história real polêmica e cheia de capítulos e trata assim, com discrição. Aí a gente pode continuar pensando nela, do nosso jeito.

terça-feira, 27 de julho de 2010

O CINEMA VAI À MESA


Ganhei um presente de aniversário esse ano que foi dos mais legais, de uma grande amiga que sabe que, mesmo que o meu faniquito culinário passe tão depressa quanto chegou, não vale a pena deixar passar a piada.

"O cinema vai à mesa" é um livro escrito a duas mãos, pelo Rubens Ewald Filho (para a galerinha rata de cinema, um velho conhecido) e pela Nilu Lebert, jornalista (que trata principalmente de gastronomia).

A idéia é deliciosa: eles listam uma série de filmes que falam sobre comida, ou têm a ver com esse universo de alguma maneira, ou são descaradamente sobre culinária, ou têm um jantar especialmente marcante, enfim. Uma coleção bacana de chefs ensinam as receitas inesquecíveis dessas cenas, com listinha de ingredientes e tudo, explicando tintin por tintin, pras mirins como eu. E pra cada filme, uma resenha também gostosa, dessas que a gente adora ler - quando o crítico realmente gosta do filme.

O menu é de dar água da boca, vou falar só alguns: Dona Flor e Seus Dois Maridos, A Festa de Babette, Como Água para Chocolate, O Amor está na mesa (um amor antigo, que não saiu em DVD no Brasil, absurdo!), Vatel, Volver, O Tempero da Vida e outros.

E a preguiça de digitar 1 parágrafo não vai ser maior do que a tentação de dar uma amostrinha do texto deles, pra abrir o apetite:

"São três os grandes prazeres da vida: comida, sexo e, é claro, cinema. E não necessariamente nessa ordem. Mas, dos três, o cinema é o único que pode conter os outros dois, além de incontáveis outros sentimentos, temas e experiências servidos numa única bandeja: a tela."

Fico devendo uma sessão quando conseguir fazer uma receita decentemente!

sexta-feira, 28 de maio de 2010

UMA AMIZADE SEM FRONTEIRAS (François Dupeyron, 2003)

A infeliz tradução do título (Monsieur Ibrahim, no original) pode fazer você desviar dessa pérola na prateleira da 2001. Não o faça.

Possivelmente a melhor atuação do Omar Shariff, que apesar de muito bonitão e com aquela presença toda que conhecemos, nunca convenceu muito os críticos e cinéfilos mais chatinhos.

A história é mais ou menos simples, mas talvez por isso, como geralmente são os filmes despretensiosos que a gente ama, seja tão envolvente. Momo (Pierre Boulanger) é um molecote judeu, que mora com o pai absolutamente deprê num beco em Paris rodeado de prostitutas, se virando nos trinta pra conseguir espremer o dinheirinho que o pai dá. O lindinho do Boulanger ganhou o prêmio de melhor ator no festival de Chicago, e não sem merecer. Quem não saiu do cinema com o coração derretido, completamente envolvido nas aventuras do adolescente começando a vida adulta aos trancos e barrancos, bom sujeito não é. Nota mil pro fofo, que só não rouba a cena porque o Shariff, na pele do monsieur Ibrahim, um turco sufi dono do mercadinho árabe, engraçado e poético, está um arraso. Adoro as frases de efeito, os conselhos profundos, que ele consegue dar com humor e um pouquinho de deboche. Fica uma delícia.

Aí você já sabe, o pai é relapso, o turco é solitário, o menino precisa de apoio, a amizade dos dois vai crescendo, e você já nem sabe mais quem é que no fundo está ajudando quem. O final é um pouquinho melancólico e óbvio, nada que tire a graça da história, de maneira alguma.

Ah, e a trilha sonora é um deleite, pra gravar e tocar em casa em dias de faxina, domingos chuvosos e manhãs tristinhas. Levanta qualquer humor caído!

Além do prêmio do Boulanger, o filme foi indicado ao Globo de Ouro e ao Goya, e o Omar Sharif ganhou o César de melhor ator e prêmio do público como melhor ator no Festival de Veneza.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

O SEGREDO DE SEUS OLHOS (Juan José Campanella, 2009)

Ok que todo mundo já sabe, mas posso falar de novo? Filmaço esse do Juan José Campanella (O Filho da Noiva), baseado no livro do Eduardo Sacheri (A pergunta de seus olhos), que tomou o Oscar das mãos do favorito A Fita Branca, arrasou em bilheteria na Argentina e deixou todo latino-americano um pouquinho mais orgulhoso.

O filme conta a história de um ex-defensor público (Ricardo Darín, inesquecível), que não consegue esquecer um crime que aconteceu há 25 anos e, bem, ele não consegue esquecer muitas outras coisas também, mas aí você vai ter que assisitir, que eu sou estraga-prazer mas nem tanto.

Além de ser bem filmado, bem montado, bem escrito, da fotografia ser absurda, do figurino, maquiagem e ambitação serem mega bem cuidados, vale ouro ver uma história tão densa e bem contada com nosso gosto (tô misturando a gente com os argentinos, tá), a burocracia monstra, a ditadura, a paixão pelo futebol (pros entendidos, que não é meu caso, num plano-sequência que tá todo mundo atrás do Campanella pra descobrir como foi feito), a graça do politicamente incorreto, o companheiro do Benjamín que bebe mais que motor de carro véio (mas que tem a sacada genial de lembrar que a gente pode mudar tudo, nome, casa, cidade, menos nossas paixões).

Mas lindo mesmo, como diz o título, é o segredo dos olhos que nunca trai o que sentimos, mesmo quando falamos exatamente o contrário. E com essa pulga atrás da orelha, o Benjamín vai juntando as peças do assassinato (e suas consequências), e, óbvio, juntando as peças da própria vida dele também. Porque O Segredo dos Seus Olhos também é um filme sobre os fantasmas que ficam guardados (às vezes, literalmente) e aí, meu amigo, só indo até o fim pra exorcisar.

Nossos hermanos não jogam lá muita bola (hehe), mas fazem um cinema que meu-deus. Se perdeu no cinema, já deixa reservado na 2001 pra não esquecer quando sair em DVD, tá?

A ILHA DO MEDO (Martin Scorsese, 2009)

Corro o risco de levar ovada, mas vou falar. Em algum momento da minha vida de cinéfila, decidi, quando não consegui passar do décimo quinto minuto de Kill Bill, que nunca mais assistiria Tarantino, por mais que o cara seja fodíssimo, por mais que os filmes sejam imperdíveis, originais e incríveis. E nunca mais assisti. Leio todas as resenhas, torço por ele quando os filmes são indicados, mas não assisto. Ué, gente, cada doido tem sua mania.

Depois de ver a Ilha do Medo, decidi a mesma coisa com o Scorsese. Já vinha meio de bode dos Inflitrados, (mesmo tendo achado O Aviador incrível) e a real é que não aguento essa violência filmada nos mínimos detalhes beirando o mau-gosto, não aguento esse terrorismo psicológico e me reservo o direito de não ter que aguentar!

Pronto, falei.

Agora. Não dá pra negar que o Scorsese sabe como ninguém fazer referências entre gêneros e autores e ainda levar com o seu próprio estilo. Você fica tentando definir o que extamente faz parecer um pouco Hitchcock, um pouco Lynch, um pouco filme B, mas não consegue, porque ele vai misturando tudo e criando um clima de suspense daqueles que você fica um pouco sem respirar mesmo, do começo ao fim.

Leonardo di Caprio está bem, Mark Rufallo está ok. Eliminaria os efeitos especiais, tipo quando a ex-mulher aparece nas alucinações, uns diálogos fake-melodrama, mas, vá lá, isso é bem pessoal.

Fiquei também um pouquinho frustrada porque achei meio parecido com a Janela Secreta, com o Johny Depp (não lembro o ano, mas o google lembra), baseado num livro do Stephen King, mas adimito que minha cultura suspense-terror-psicológico é pífia, então, bem, não devo ser parâmetro pra muita coisa nesse campo!

Então é isso, pessoal, com todo o respeito do meu coração, Scorsese a partir de agora só via trailer, resenha e relatos, todos bem-vindos!

domingo, 4 de abril de 2010

O CASTELO DE MINHA MÃE (Yves Robert, 1990)

O Castelo de Minha Mãe é continuação de A Glória de Meu Pai (impossível encontrar o DVD, aceito empréstimos), ambos adaptações dos livros auto-biográficos de mesmo nome, do Marcel Pagnol, escritor membro da Academia Francesa de Letras e também dramaturgo e diretor.

Filme doce e ensolarado, daqueles que dá vontade de ser criança mais uma vez (de preferência na França), conta do jeito mais fofo que você possa imaginar a saga de um molecote que se apaixona pelo campo depois de passar as férias em Provence e a partir daí não consegue pensar em outra coisa. Mãe e o pai inventam o diabo pra poder passar os feriados e (depois de muito custo) os finais de semana na casa de campo, e nem vou começar a falar dos artifícios que eles têm que usar, senão acabo com o filme em uma linha.

Em vários pedaços, dá vontade de pedir pro diretor contar mais um pouquinho, mas ainda bem que tem o livro pra gente saber mais da princesinha mean que faz nosso herói se passar por cachorrinho (literalmente, é ótimo!).

O filme é uma doçura sem fim, a fotografia é um amor, as personagens são apaixonantes, as atuações são ótimas, é bem-humorado na hora certa, tristinho no tom e com final de dar frio na barriga. Quanto tempo faz que você não vê um filme assim?

Taí que adoro quando me indicam um filme e o filme é bom! Thierry, merci!

EDIFÍCIO MASTER (Eduardo Coutinho, 2002)

Um prédio meio decadente em Copacabana, que já foi perigoso, boca-do-lixo e mal frequentado. 276 apartamentos (conjugados apertadinhos) e uns 500 moradores dividindo aqueles corredores escuros que parecem mais com um hospital estranho do que com os prédios novinhos e assépticos de hoje em dia. Um documentário estilo liga a câmera, conduz a entrevista e deixa a pessoa falar o que quiser. Já dá mais ou menos pra imaginar o que vamos ver, né?

Isso mesmo, uma miscelânea de tipos mega diferentes (tem garota de programa, senhorinha aposentada, poetisa, menina que veio do interior fazer vestibular, ex-jogador de futebol). Isso mesmo, eles lá sentadinhos, cada um na sua casa, bem arrumadinhos pra entrevista, falando pelos cotovelos, com a condução do Coutinho e equipe.

Confesso que me deu um pouco de preguiça a falta de roteiro (são zil depoimentos, tem que ter paciência e ver cada um sem esperar grandes evoluções, explicações ou conexões). Mas, bem, essa é a graça do filme, é isso o que você vai ver e quem diabos precisa de fricotes de edição, grandes efeitos ou coisa que o valha quando alguém, tão de carne e osso que até dói, abre o coração na frente da câmera e conta a história da vida, se emociona, ri, filosofa.

Às vezes parece um tantinho melodramático, até porque as pessoas já foram entrevistadas previamente e sabem mais ou menos o que dizer na hora. Por isso, gostei bastante dos extras, que são as entrevistas prévias, resultado da pesquisa da equipe nas 3 semanas que antecederam a filmagem (eles alugaram um apê e moraram lá um mês). Se, por um lado, o material é mais cru e as conversas mais desarticuladas, sem dúvida tem o frescor da falta de pose e da naturalidade das pessoas que nem sabiam que aquilo ia virar um filme.

O Eduardo Coutinho é um dos documentaristas mais importantes do Brasil, tem uns 15 filmes nas costas, entre eles Cabra Marcado para Morrer, Dona Flor e seus Dois Maridos (roteiro) e Jogo de Cena, de 2007, que não vi ainda mas tem toda a pinta de ser bem parecido com o Edifício Master.

Legal pra fase documentário da vida, mas podia ser (não sei como, juro) uma tica mais envolvente.

quarta-feira, 31 de março de 2010

ACOSSADO (Jean-Luc Godard, 1959)

Olha, já vou logo avisando que tô numa fase Nouvelle Vague, então desconto pros meus exageros de deslumbrada, tá.

Momento mini-curso pros que, como eu, ouviram falar desses filmes e diretores a vida toda, mas resolveram, só agora, assistir um por um, sistematicamente. O Acossado foi o filme de estréia do Godard (depois que assistirem, pasmem), que, junto com uma porção de críticos de cinema importantes na época - Truffaut, Chabrol, Resnais e outros da Cahiers du Cinèma - resolveu parar de reclamar que o cinema francês estava bobo e decadente e resolveu colocar a mão na massa. A Nouvelle Vague nunca existiu como movimento "formal", mas fez escola com a liberdade no roteiro, a fotografia de meu-deus, a edição nonsense, os temas libertários e as personagens deliciosamente marginais.

Aí que o Godard estreou com essa jóia, com roteiro do François Truffaut, e eu, que detesto esses "tem-que-ver" que os cinéfilos adoram, digo que tem mesmo que ver esse que, segundo os especialistas, é o marco de início da Nouvelle Vague e uma das coisas mais modernas que o cinema já fez. Pra ver o Jean-Paul Belmondo arrasando como o malandrésimo Poiccard, a linda da Jean Seberg como a norte-americana cujo corte de cabelo o mundo inteiro deve ter copiado. Pra ver a tomada dos dois no quarto dela saracoteando pra lá e pra cá, que é deleite. Pra ver o Poiccard cantarolando no carro que aime beacoup la france. Pra ver uma das cenas que mais gosto ever que é Paris anoitecendo e as luzes acendendo, coisa linda.

O Jean-Paul Belmondo estourou nesse filme e depois fez zilhões de outros, depois fez teatro e até hoje (fofo e ainda lindo) é um dos queridões da França. E pra quem não se contentar com o filme, vale a pena dar uma olhada na entrevista dele, mais ou menos na época, contando como o filme foi escrito e rodado, em:
http://www.youtube.com/watch?v=M2oGSkEpyEc

A QUESTÃO HUMANA (Nicolas Klotz, 2007)

Ok, primeiro as credenciais. O filme ganhou o prêmio de Melhor Filme pela crítica na Mostra SP de Cinema em 2007, Melhor Ator e Melhor Direção de Arte no Festival de Gijón (e se as informações estiverem erradas, desculpem a belezinha que anota tudo correndo pra contar depois e não entende a própria letra).

Tá. Agora o criticável (quero deixar o melhor pro final): você vai identificar muitas questões que o cara quis dar conta numa única tacada (longa tacada de 140 minutos), algumas delas tratadas assim bem en passant. Eu me confundo, e prefiro um assunto pesado de cada vez, melhor explicado, mas vamos lá, nem por isso o Klotz se perdeu.

Agora, a Questão Humana é um filme sério, de verdade, e pesado, mas é um filme bom, bom tipo ótimo, bom daqueles que não pode perder. Uma das direções de arte que mais contribuem pro argumento e pro espírito do filme que já vi, ever. A tomada inicial (a cena no banheiro) explica, claro que de maneira bem poética, quase que o filme inteiro. Quase. Por que além das questões "firma" que todo coitado que bate cartão, tem que paparicar o diretor e fazer entrevista com o gerente de RH, como eu, conhece, o filme vai caminhando pra coisas muito mais escondidas, profundas e complicadas.

Acho lindo o jogo de palavras entre problema e questão, e aliás, esse cuidado com a escolha dos termos (também a coisa da linguagem técnica versus o sofrimento humano) é uma das coisas mais originais e brilhantes do filme, pena que só vai aparecer mais pro final. Mas a "palavra" não aparece só assim, difícil e cabeça. Nota mil pra cena no barzinho onde eles assitem um cantor de fado e outro daquelas canções espanholas que até o mais gélido dos imparciais se arrepia, como quem diz que a palavra também proporciona essas maravilhas.

Não esqueço a maneira como o diretor resolve os minutos finais do filme (ai que vontade de contar como é). Não esqueço a interpretação incrível do Mathieu Amalric, que vai se desmantelando no decorrer dos acontecimentos. Não esqueço o perfume meio noir e sombrio da fotografia, que por si só já vale o tempo e o dindin do aluguel do DVD.

Só pra avisar, vai acabar triste, ok? Mas eu veria de novo, mesmo assim, mil vezes.

EDUCAÇÃO (Lone Scherfig, 2009)

Pra começar, se você não se identifica, mesmo que só um pouquinho, com a moçoila caga-regra que tem vontade de transgredir (sei lá o quê, qualquer coisa), com a sedução do cara bem mais velho, com Paris como o lugar onde tudo acontece, e em francês, o que é melhor ainda, então muito do apelo desse filme vai perder o sentido.

Maaaas, se você for uma criatura humana desse planeta, de um jeito ou de outro já passou por apuros mais ou menos parecidos pelos quais passa nossa querida heroína Jenny (Carey Mulligan, absolutamente fofa no papel).

A Lone Scherfig é uma das integrantes do movimento Dogma (do Lars von Trier, Dogville, bem, vocês lembram). Libertária, formação nada a ver com a chatice londrina que retrata, se baseou num livro (esse sim, de memórias) da Lynn Barber, que pra quem gosta de ler o livro depois de ver o filme, o que não é at all meu caso, deve valer a pena.

O filme concorreu a zil categorias no Oscar (inclusive melhor filme, exagero) mas não levou nenhuma. Mas já que somos pessoinhas bem subversivas que não damos a menor bola pras estatuetas, eu veria, assim, num domingão, num sabadão à tarde ou coisa do gênero.

Interpretações ótimas, envolventes e convincentes. Londres numa época que vale a pena o retrato. Dúvidas existenciais que todos já tivemos (ou ainda temos). Fim que todos já esperamos, apesar da esperancinha de ser diferente dessa vez.

Se eu escrever mais uma linha, vou contar o fim do filme!

UM HOMEM SÉRIO (irmãos Cohen, 2009)

Olha, pelo cinema dividido entre riso e silêncio nas melhores piadas, acho que não é um filme pra todos os gostos, mas eu adorei, e ri a beça. Nossos amiguinhos irmãos Cohen concorreram a dois Oscar esse ano (inclusive melhor filme) e não ganharam nenhum, o que não me admira, porque certamente esse humor negríssimo e sofisticado não é mesmo a cara da "academia" (não é chique saber os jargões, gente?).

Bom, vocês já viram os Cohen em Onde os Fracos Não Têm Vez e Queime Depois de Ler. Dessa vez, os bonitos resolveram levar todas as questões do divã pra telona, uma vez que o filme é quase uma auto-biografia judia hilária. Confesso que gosto mais deles tirando sarro do que sendo violentos, cruéis e inconclusivos (quem conseguiu dormir depois de ver aquele personagem do Javier Bardem, peloamordedeus).

Mais uma vez, eles escrevem e dirigem o filme, e mesmo não sendo entendida, juro que adoro esses casos, não há quem negue que são filmes pelo menos mais consistentes.

Que mais além de bom roteiro, boa direção e boa trilha? Fotografia fantástica e direção de arte fodíssimas, num limite bem cuidado entre caricato engraçado e brega exagerado. Os dilemas morais e existenciais que os rabinos não conseguem responder. (Um deles, pasmem, morram de rir, o Howard do The Big Bang Theory). A judia desviando dinheirinho do pai pra fazer uma plástica (no nariz, no nariz!). O moleque chapadesebésimo no bar mitzva. Ai, e muitas outras, mas não vou contar porque vou estragar sua experiência mais do que já estraguei até agora!

Gosto desses filmes de sátira do homem comum, com uma pitada de bom senso pra não virar a-vida-como-ela-é e você ter que sair do cinema deprê. Gosto de filme que não tem exatamente fim, porque imagino o quão difícil deve ser terminar bem uma história (eu não consigo terminar bem um post de blog) sem ter que apelar pra fórmulas mágicas e melodramas. Muita gente não gostou justamente porque o filme "não acaba". Ai, gente, sério. Deixemos os fins apoteóticos pra novela da globo!

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

ÚLTIMO TANGO EM PARIS (Bernardo Bertolucci, 1972)

(Recuperando um post de 21 de outubro de 2008, em outro blog!)

Confesso que amo cinema, assito tudo e qualquer coisa, mas a angústia de ter que ver todos os filmes da Mostra me dá um pouco de tontura! A gente fica tão aflito pra escolher os melhores pra ver (e pra escapar de roubadas indescritíveis), que acaba vendo nenhum ou poucos, e pior, esquecendo de todo o resto que está na prateleira da 2001 há 50 anos e você nunca teve a pachorra de alugar!

Nesse espírito assitir os clássicos antes que os novos virem clássicos e sua lista aumente cada vez mais, vi, finalmente, essa semana, e sem vergonha de ter demorado tanto, O Último Tango em Paris. Motivos para ver esse filme fabuloso, polêmico e modernésimo (até hoje) não faltam e qualquer blog de crítica de cinema de verdade vai te falar uns 200. A direção do Bertolucci, a fotografia foda (de Vittorio Storaro), o Marlon Brandon impossível, a lindinha da Maria Schneider, o retrato improvável de Paris, a tal da cena da manteiga (não acredito que seja essa a única cena que tenha ficado gravada no imaginário popular!), são alguns desses. Escolha o que quiser, porque você vai terminar a sessão com aquele incômodo esquisito, com aquela pulguinha atrás da orelha que só um bom clássico consegue colocar. Fiquei maluca com a cena do Paul e da sogra no abre-e-fecha das portas do hotelzinho, mais maluca ainda com o Paul conversando com a mulher morta, e definitivamente o concurso de tango em paris é qualquer coisa de surreal. Vale o ingresso!

sábado, 20 de fevereiro de 2010

AVATAR (James Cameron, EUA/2009)

Tá bom. Depois de uma tentativa frustrada de resistência, com o rabinho entre as pernas, fui ver o mega-blaster-super-ultra Avatar ontem. A última vez que o James Cameron me tirou de casa, eu tinha 15 anos, 10 amigas suspirando toda vez que Leo aparecia na telona, e 1 namorado que, coitado, teve que participar do programa infeliz, e me beliscava toda vez que Leo aparecia na telona. Faz parte.

Querem as notícias boas ou as ruins primeiro? Ok, as ruins. Fiquei enjoadíssima com os oclinhos 3D, além de achar o equipamento bem podrinho (ai, gente, cobra o tíquete mais caro e arruma uns óculos decentes). Pra falar bem a verdade, acho que vou ser daquelas velhas corocas que saem do cinema resmungando que no meu tempo é que era bom, filme, projetor, tela, a gente, e nada mais. Fiquei lembrando de um filminho dos muppet babies que eu vi nem sei onde, com uns 10 anos, a última vez que 3D foi divertido pra mim. Mas tá, tá, tá. É legal.

E acho que todo mundo entendeu os clichês, né? Cara-pálida é mau, nativo é bom, tamo acabando com o mundo pra descolar umas pepitas super valorizadas, mas o fim a mãe-natureza acorda e acaba com os milico. Ai, Cameron, só você. O chefão militar descendo com roupa de robocop no fim pra matar o mocinho pessoalmeeeente foi daquelas, o beijo bizarro dos bonecos, o ritual kumba com todo o Povo sentadinho, abraçado e girando em transe, a galera respeitando o forasteiro só porque ele conseguiu dirigir a pipa gigante... vai, gente, falando assim até que é engraçado!

Boas notícias? O visual é o mais lindo, mais psicodélico, mais criativo, mais colorido, mais exuberante ever. Quem tomou esse ácido todo, né? É absurdo. Fiquei morta de vontade de ter uma daquelas telinhas do laboratório da Sigourney. Aliás, nossa heroína, que tá fofa e arrasou com o cigarrão na primeira cena e o uiscão numa das últimas. A história da árvore das almas, de você conectado com os bichinhos, da mama natureza que não toma partido... não é bonitinho, gentê? E as montanhas suspensas? Taí, pra mim, toque de gênio.

Ai, e quem não adora filme que o mocinho é meio estranho, meio rebelde, mas tem boas intenções e quando você acha que não tem mais saída, dá um jeito esperto de salvar todo mundo? Eu adoro.

Tirando a breguice, o exagero e o melodrama... adorei e vejo de novo (se tiver versão 2D, tem??). Ah, e Cameron, queremos concordar com você: a natureza sempre vence no final! :)