quarta-feira, 31 de março de 2010

ACOSSADO (Jean-Luc Godard, 1959)

Olha, já vou logo avisando que tô numa fase Nouvelle Vague, então desconto pros meus exageros de deslumbrada, tá.

Momento mini-curso pros que, como eu, ouviram falar desses filmes e diretores a vida toda, mas resolveram, só agora, assistir um por um, sistematicamente. O Acossado foi o filme de estréia do Godard (depois que assistirem, pasmem), que, junto com uma porção de críticos de cinema importantes na época - Truffaut, Chabrol, Resnais e outros da Cahiers du Cinèma - resolveu parar de reclamar que o cinema francês estava bobo e decadente e resolveu colocar a mão na massa. A Nouvelle Vague nunca existiu como movimento "formal", mas fez escola com a liberdade no roteiro, a fotografia de meu-deus, a edição nonsense, os temas libertários e as personagens deliciosamente marginais.

Aí que o Godard estreou com essa jóia, com roteiro do François Truffaut, e eu, que detesto esses "tem-que-ver" que os cinéfilos adoram, digo que tem mesmo que ver esse que, segundo os especialistas, é o marco de início da Nouvelle Vague e uma das coisas mais modernas que o cinema já fez. Pra ver o Jean-Paul Belmondo arrasando como o malandrésimo Poiccard, a linda da Jean Seberg como a norte-americana cujo corte de cabelo o mundo inteiro deve ter copiado. Pra ver a tomada dos dois no quarto dela saracoteando pra lá e pra cá, que é deleite. Pra ver o Poiccard cantarolando no carro que aime beacoup la france. Pra ver uma das cenas que mais gosto ever que é Paris anoitecendo e as luzes acendendo, coisa linda.

O Jean-Paul Belmondo estourou nesse filme e depois fez zilhões de outros, depois fez teatro e até hoje (fofo e ainda lindo) é um dos queridões da França. E pra quem não se contentar com o filme, vale a pena dar uma olhada na entrevista dele, mais ou menos na época, contando como o filme foi escrito e rodado, em:
http://www.youtube.com/watch?v=M2oGSkEpyEc

A QUESTÃO HUMANA (Nicolas Klotz, 2007)

Ok, primeiro as credenciais. O filme ganhou o prêmio de Melhor Filme pela crítica na Mostra SP de Cinema em 2007, Melhor Ator e Melhor Direção de Arte no Festival de Gijón (e se as informações estiverem erradas, desculpem a belezinha que anota tudo correndo pra contar depois e não entende a própria letra).

Tá. Agora o criticável (quero deixar o melhor pro final): você vai identificar muitas questões que o cara quis dar conta numa única tacada (longa tacada de 140 minutos), algumas delas tratadas assim bem en passant. Eu me confundo, e prefiro um assunto pesado de cada vez, melhor explicado, mas vamos lá, nem por isso o Klotz se perdeu.

Agora, a Questão Humana é um filme sério, de verdade, e pesado, mas é um filme bom, bom tipo ótimo, bom daqueles que não pode perder. Uma das direções de arte que mais contribuem pro argumento e pro espírito do filme que já vi, ever. A tomada inicial (a cena no banheiro) explica, claro que de maneira bem poética, quase que o filme inteiro. Quase. Por que além das questões "firma" que todo coitado que bate cartão, tem que paparicar o diretor e fazer entrevista com o gerente de RH, como eu, conhece, o filme vai caminhando pra coisas muito mais escondidas, profundas e complicadas.

Acho lindo o jogo de palavras entre problema e questão, e aliás, esse cuidado com a escolha dos termos (também a coisa da linguagem técnica versus o sofrimento humano) é uma das coisas mais originais e brilhantes do filme, pena que só vai aparecer mais pro final. Mas a "palavra" não aparece só assim, difícil e cabeça. Nota mil pra cena no barzinho onde eles assitem um cantor de fado e outro daquelas canções espanholas que até o mais gélido dos imparciais se arrepia, como quem diz que a palavra também proporciona essas maravilhas.

Não esqueço a maneira como o diretor resolve os minutos finais do filme (ai que vontade de contar como é). Não esqueço a interpretação incrível do Mathieu Amalric, que vai se desmantelando no decorrer dos acontecimentos. Não esqueço o perfume meio noir e sombrio da fotografia, que por si só já vale o tempo e o dindin do aluguel do DVD.

Só pra avisar, vai acabar triste, ok? Mas eu veria de novo, mesmo assim, mil vezes.

EDUCAÇÃO (Lone Scherfig, 2009)

Pra começar, se você não se identifica, mesmo que só um pouquinho, com a moçoila caga-regra que tem vontade de transgredir (sei lá o quê, qualquer coisa), com a sedução do cara bem mais velho, com Paris como o lugar onde tudo acontece, e em francês, o que é melhor ainda, então muito do apelo desse filme vai perder o sentido.

Maaaas, se você for uma criatura humana desse planeta, de um jeito ou de outro já passou por apuros mais ou menos parecidos pelos quais passa nossa querida heroína Jenny (Carey Mulligan, absolutamente fofa no papel).

A Lone Scherfig é uma das integrantes do movimento Dogma (do Lars von Trier, Dogville, bem, vocês lembram). Libertária, formação nada a ver com a chatice londrina que retrata, se baseou num livro (esse sim, de memórias) da Lynn Barber, que pra quem gosta de ler o livro depois de ver o filme, o que não é at all meu caso, deve valer a pena.

O filme concorreu a zil categorias no Oscar (inclusive melhor filme, exagero) mas não levou nenhuma. Mas já que somos pessoinhas bem subversivas que não damos a menor bola pras estatuetas, eu veria, assim, num domingão, num sabadão à tarde ou coisa do gênero.

Interpretações ótimas, envolventes e convincentes. Londres numa época que vale a pena o retrato. Dúvidas existenciais que todos já tivemos (ou ainda temos). Fim que todos já esperamos, apesar da esperancinha de ser diferente dessa vez.

Se eu escrever mais uma linha, vou contar o fim do filme!

UM HOMEM SÉRIO (irmãos Cohen, 2009)

Olha, pelo cinema dividido entre riso e silêncio nas melhores piadas, acho que não é um filme pra todos os gostos, mas eu adorei, e ri a beça. Nossos amiguinhos irmãos Cohen concorreram a dois Oscar esse ano (inclusive melhor filme) e não ganharam nenhum, o que não me admira, porque certamente esse humor negríssimo e sofisticado não é mesmo a cara da "academia" (não é chique saber os jargões, gente?).

Bom, vocês já viram os Cohen em Onde os Fracos Não Têm Vez e Queime Depois de Ler. Dessa vez, os bonitos resolveram levar todas as questões do divã pra telona, uma vez que o filme é quase uma auto-biografia judia hilária. Confesso que gosto mais deles tirando sarro do que sendo violentos, cruéis e inconclusivos (quem conseguiu dormir depois de ver aquele personagem do Javier Bardem, peloamordedeus).

Mais uma vez, eles escrevem e dirigem o filme, e mesmo não sendo entendida, juro que adoro esses casos, não há quem negue que são filmes pelo menos mais consistentes.

Que mais além de bom roteiro, boa direção e boa trilha? Fotografia fantástica e direção de arte fodíssimas, num limite bem cuidado entre caricato engraçado e brega exagerado. Os dilemas morais e existenciais que os rabinos não conseguem responder. (Um deles, pasmem, morram de rir, o Howard do The Big Bang Theory). A judia desviando dinheirinho do pai pra fazer uma plástica (no nariz, no nariz!). O moleque chapadesebésimo no bar mitzva. Ai, e muitas outras, mas não vou contar porque vou estragar sua experiência mais do que já estraguei até agora!

Gosto desses filmes de sátira do homem comum, com uma pitada de bom senso pra não virar a-vida-como-ela-é e você ter que sair do cinema deprê. Gosto de filme que não tem exatamente fim, porque imagino o quão difícil deve ser terminar bem uma história (eu não consigo terminar bem um post de blog) sem ter que apelar pra fórmulas mágicas e melodramas. Muita gente não gostou justamente porque o filme "não acaba". Ai, gente, sério. Deixemos os fins apoteóticos pra novela da globo!