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segunda-feira, 29 de novembro de 2010

DOIS IRMÃOS (Daniel Burman, 2010)

É fato que qualquer filme argentino me faz sair de casa, mas vou com mais convicção ainda ver os do Daniel Burman, que conquistou minha carteirinha de fã depois de Abraços Partidos (muito bom) e Ninho Vazio (imperdível).

Bom, todas as resenhas e o trailer já contaram a história, então posso repetir sem ser spoiler. Susana (Graciela Borges) é uma perua neurótica, solteirona, grosseira e desbocada. Marco (Antonio Gasalla) é um coitadinho abnegado, amargo e meio apático que abriu mão de uma porção de coisas pra cuidar da chata da mãe. Neneca (a mãe) morre no começo do filme pra deixar os dois irmãos solitários no meio de uma terceira idade que não imaginavam para si, olhando um pra cara do outro, tendo que enfrentar as mil frustrações pessoais e os dramas familiares que são tão antigos que parecem nem ter jeito mais.

Falando assim parece melodramático, mas a dose certa de humor e a maravilhosa atuação da dupla, principalmente o Gasalla, que está genial, seguram o caricato até onde dá. Até onde dá, repito, porque lá pelo meião do filme, comecei a ficar incomodada com a pancadaria emocional da descontrolada da Susana, e o Marquito reagindo com aquele olhar de peixe morto e nada mais, e achei que nesse momento a história perdeu um pouco da naturalidade convincente dos filmes do Burman, e saracoteei na cadeira uns belos 10 minutos (sinal máximo de que não estou gostando).

Mas, para compensar (e compensou bem), os 20 minutos finais do filme são lindos, delicados, otimistas e terminam do jeito mais gracioso que dá essa história tão real que é difícil colocar um ponto final que não pareça novela.

Devo dizer que foi também minha reconciliação com o Uruguai, que visitei uma só vez na vida e fui embora resmungando (também por que estava numa fase de humor tão canino que não teria gostado nem do Rio de Janeiro ensolarado com o mar claro). Fazer as pazes com um lugar é quase tão importante quanto fazer as pazes com uma pessoa, não é, gente?

Ah, e haja o que houver, mesmo se estiver doido pra fazer pipi, não levante da cadeira antes dos créditos terminarem total. Fica a dica.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

O SEGREDO DE SEUS OLHOS (Juan José Campanella, 2009)

Ok que todo mundo já sabe, mas posso falar de novo? Filmaço esse do Juan José Campanella (O Filho da Noiva), baseado no livro do Eduardo Sacheri (A pergunta de seus olhos), que tomou o Oscar das mãos do favorito A Fita Branca, arrasou em bilheteria na Argentina e deixou todo latino-americano um pouquinho mais orgulhoso.

O filme conta a história de um ex-defensor público (Ricardo Darín, inesquecível), que não consegue esquecer um crime que aconteceu há 25 anos e, bem, ele não consegue esquecer muitas outras coisas também, mas aí você vai ter que assisitir, que eu sou estraga-prazer mas nem tanto.

Além de ser bem filmado, bem montado, bem escrito, da fotografia ser absurda, do figurino, maquiagem e ambitação serem mega bem cuidados, vale ouro ver uma história tão densa e bem contada com nosso gosto (tô misturando a gente com os argentinos, tá), a burocracia monstra, a ditadura, a paixão pelo futebol (pros entendidos, que não é meu caso, num plano-sequência que tá todo mundo atrás do Campanella pra descobrir como foi feito), a graça do politicamente incorreto, o companheiro do Benjamín que bebe mais que motor de carro véio (mas que tem a sacada genial de lembrar que a gente pode mudar tudo, nome, casa, cidade, menos nossas paixões).

Mas lindo mesmo, como diz o título, é o segredo dos olhos que nunca trai o que sentimos, mesmo quando falamos exatamente o contrário. E com essa pulga atrás da orelha, o Benjamín vai juntando as peças do assassinato (e suas consequências), e, óbvio, juntando as peças da própria vida dele também. Porque O Segredo dos Seus Olhos também é um filme sobre os fantasmas que ficam guardados (às vezes, literalmente) e aí, meu amigo, só indo até o fim pra exorcisar.

Nossos hermanos não jogam lá muita bola (hehe), mas fazem um cinema que meu-deus. Se perdeu no cinema, já deixa reservado na 2001 pra não esquecer quando sair em DVD, tá?