A Mostra tem essa deliciosa mania de trazer clássicos pra reexibir pros pobres mortais que perderam ou não tinham idade suficiente pra ver essas maravilhas na telona. Porque cinema é na sala de cinema, né, gente? Você pode ter uma TV de mil polegadas e um surround com mil caixas de som, mas, como já disse o André Barcinski, ver filme em casa é como ir a restaurante em shopping: a comida pode até ser boa, mas a experiência nunca será completa.
Falando em experiência completa, fui assistir Asas do Desejo na Cinemateca, certamente minha sala preferida entre todas dessa cidade. A Mostra sempre faz um afago no Wim, mas dessa vez a coisa foi séria: além de Asas do Desejo, exibiram Paris, Texas, O filme de Nick e Até o Fim do Mundo. Ele retribui o afago e fica por aqui a semana inteira, dando o simpático ar de sua graça por aí.
Não precisa dizer muito desse filme que foi um dos mais importantes da década de 80, o mais bonito do Wim e um dos mais poéticos que já vi.
Vocês já sabem a história dos anjos que ficam por aí tentando dar uma ajudinha aos perturbados seres humanos, com aquele turbilhão de pensamentos narrados em off, tão parecidos com os nossos que até dá uma tristezinha doída. Um dos anjos se apaixona por uma trapezista e decide existir: a partir daí o filme fica colorido, e Damiel (Bruno Ganz) vai ter que se virar pra encontrar e convencer Marion desse amor todo, o que não é difícil.
Esse parágrafo resume a história, mas como todo filme inesquecível, a história é muito pouco do filme, que é uma obra-prima de fotografia, ritmo e lirismo.
É um dos retratos que mais amo de uma Berlim que só conheço via lente dos diretores: becos, terrenos baldios, ruínas, reconstrução e modernidade.
E sim, o enredo é quase o mesmo do água com açúcar Cidade dos Anjos (com a Meg Ryan e o Nicolas Cage). Gostei desse filmezinho quando vi, lá pelos meus 15 anos, mas quando vi Asas do Desejo não entendi pra quê refilmar uma história que foi filmada de maneira definitiva, mil vezes mais moderna apesar de ser uma década mais velha e arrebatadora o suficiente pra ser reexebida com freqüência, e não refilmada. Vai saber.
Se você gosta de Nick Cave & The Seeds, babe com as 3 músicas ao vivo que eles fazem no filme, inclusive na cena que o lindo do Bruno Ganz encarnado vai procurar sua Marion numa balada berlinense modernosa e decadente.
E se não deu pra ver no cinemão: vale DVD, computador, telinha de notebook, qualquer coisa. Olha que nem todo filme merece.
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