segunda-feira, 5 de abril de 2010

A ILHA DO MEDO (Martin Scorsese, 2009)

Corro o risco de levar ovada, mas vou falar. Em algum momento da minha vida de cinéfila, decidi, quando não consegui passar do décimo quinto minuto de Kill Bill, que nunca mais assistiria Tarantino, por mais que o cara seja fodíssimo, por mais que os filmes sejam imperdíveis, originais e incríveis. E nunca mais assisti. Leio todas as resenhas, torço por ele quando os filmes são indicados, mas não assisto. Ué, gente, cada doido tem sua mania.

Depois de ver a Ilha do Medo, decidi a mesma coisa com o Scorsese. Já vinha meio de bode dos Inflitrados, (mesmo tendo achado O Aviador incrível) e a real é que não aguento essa violência filmada nos mínimos detalhes beirando o mau-gosto, não aguento esse terrorismo psicológico e me reservo o direito de não ter que aguentar!

Pronto, falei.

Agora. Não dá pra negar que o Scorsese sabe como ninguém fazer referências entre gêneros e autores e ainda levar com o seu próprio estilo. Você fica tentando definir o que extamente faz parecer um pouco Hitchcock, um pouco Lynch, um pouco filme B, mas não consegue, porque ele vai misturando tudo e criando um clima de suspense daqueles que você fica um pouco sem respirar mesmo, do começo ao fim.

Leonardo di Caprio está bem, Mark Rufallo está ok. Eliminaria os efeitos especiais, tipo quando a ex-mulher aparece nas alucinações, uns diálogos fake-melodrama, mas, vá lá, isso é bem pessoal.

Fiquei também um pouquinho frustrada porque achei meio parecido com a Janela Secreta, com o Johny Depp (não lembro o ano, mas o google lembra), baseado num livro do Stephen King, mas adimito que minha cultura suspense-terror-psicológico é pífia, então, bem, não devo ser parâmetro pra muita coisa nesse campo!

Então é isso, pessoal, com todo o respeito do meu coração, Scorsese a partir de agora só via trailer, resenha e relatos, todos bem-vindos!

domingo, 4 de abril de 2010

O CASTELO DE MINHA MÃE (Yves Robert, 1990)

O Castelo de Minha Mãe é continuação de A Glória de Meu Pai (impossível encontrar o DVD, aceito empréstimos), ambos adaptações dos livros auto-biográficos de mesmo nome, do Marcel Pagnol, escritor membro da Academia Francesa de Letras e também dramaturgo e diretor.

Filme doce e ensolarado, daqueles que dá vontade de ser criança mais uma vez (de preferência na França), conta do jeito mais fofo que você possa imaginar a saga de um molecote que se apaixona pelo campo depois de passar as férias em Provence e a partir daí não consegue pensar em outra coisa. Mãe e o pai inventam o diabo pra poder passar os feriados e (depois de muito custo) os finais de semana na casa de campo, e nem vou começar a falar dos artifícios que eles têm que usar, senão acabo com o filme em uma linha.

Em vários pedaços, dá vontade de pedir pro diretor contar mais um pouquinho, mas ainda bem que tem o livro pra gente saber mais da princesinha mean que faz nosso herói se passar por cachorrinho (literalmente, é ótimo!).

O filme é uma doçura sem fim, a fotografia é um amor, as personagens são apaixonantes, as atuações são ótimas, é bem-humorado na hora certa, tristinho no tom e com final de dar frio na barriga. Quanto tempo faz que você não vê um filme assim?

Taí que adoro quando me indicam um filme e o filme é bom! Thierry, merci!

EDIFÍCIO MASTER (Eduardo Coutinho, 2002)

Um prédio meio decadente em Copacabana, que já foi perigoso, boca-do-lixo e mal frequentado. 276 apartamentos (conjugados apertadinhos) e uns 500 moradores dividindo aqueles corredores escuros que parecem mais com um hospital estranho do que com os prédios novinhos e assépticos de hoje em dia. Um documentário estilo liga a câmera, conduz a entrevista e deixa a pessoa falar o que quiser. Já dá mais ou menos pra imaginar o que vamos ver, né?

Isso mesmo, uma miscelânea de tipos mega diferentes (tem garota de programa, senhorinha aposentada, poetisa, menina que veio do interior fazer vestibular, ex-jogador de futebol). Isso mesmo, eles lá sentadinhos, cada um na sua casa, bem arrumadinhos pra entrevista, falando pelos cotovelos, com a condução do Coutinho e equipe.

Confesso que me deu um pouco de preguiça a falta de roteiro (são zil depoimentos, tem que ter paciência e ver cada um sem esperar grandes evoluções, explicações ou conexões). Mas, bem, essa é a graça do filme, é isso o que você vai ver e quem diabos precisa de fricotes de edição, grandes efeitos ou coisa que o valha quando alguém, tão de carne e osso que até dói, abre o coração na frente da câmera e conta a história da vida, se emociona, ri, filosofa.

Às vezes parece um tantinho melodramático, até porque as pessoas já foram entrevistadas previamente e sabem mais ou menos o que dizer na hora. Por isso, gostei bastante dos extras, que são as entrevistas prévias, resultado da pesquisa da equipe nas 3 semanas que antecederam a filmagem (eles alugaram um apê e moraram lá um mês). Se, por um lado, o material é mais cru e as conversas mais desarticuladas, sem dúvida tem o frescor da falta de pose e da naturalidade das pessoas que nem sabiam que aquilo ia virar um filme.

O Eduardo Coutinho é um dos documentaristas mais importantes do Brasil, tem uns 15 filmes nas costas, entre eles Cabra Marcado para Morrer, Dona Flor e seus Dois Maridos (roteiro) e Jogo de Cena, de 2007, que não vi ainda mas tem toda a pinta de ser bem parecido com o Edifício Master.

Legal pra fase documentário da vida, mas podia ser (não sei como, juro) uma tica mais envolvente.

quarta-feira, 31 de março de 2010

ACOSSADO (Jean-Luc Godard, 1959)

Olha, já vou logo avisando que tô numa fase Nouvelle Vague, então desconto pros meus exageros de deslumbrada, tá.

Momento mini-curso pros que, como eu, ouviram falar desses filmes e diretores a vida toda, mas resolveram, só agora, assistir um por um, sistematicamente. O Acossado foi o filme de estréia do Godard (depois que assistirem, pasmem), que, junto com uma porção de críticos de cinema importantes na época - Truffaut, Chabrol, Resnais e outros da Cahiers du Cinèma - resolveu parar de reclamar que o cinema francês estava bobo e decadente e resolveu colocar a mão na massa. A Nouvelle Vague nunca existiu como movimento "formal", mas fez escola com a liberdade no roteiro, a fotografia de meu-deus, a edição nonsense, os temas libertários e as personagens deliciosamente marginais.

Aí que o Godard estreou com essa jóia, com roteiro do François Truffaut, e eu, que detesto esses "tem-que-ver" que os cinéfilos adoram, digo que tem mesmo que ver esse que, segundo os especialistas, é o marco de início da Nouvelle Vague e uma das coisas mais modernas que o cinema já fez. Pra ver o Jean-Paul Belmondo arrasando como o malandrésimo Poiccard, a linda da Jean Seberg como a norte-americana cujo corte de cabelo o mundo inteiro deve ter copiado. Pra ver a tomada dos dois no quarto dela saracoteando pra lá e pra cá, que é deleite. Pra ver o Poiccard cantarolando no carro que aime beacoup la france. Pra ver uma das cenas que mais gosto ever que é Paris anoitecendo e as luzes acendendo, coisa linda.

O Jean-Paul Belmondo estourou nesse filme e depois fez zilhões de outros, depois fez teatro e até hoje (fofo e ainda lindo) é um dos queridões da França. E pra quem não se contentar com o filme, vale a pena dar uma olhada na entrevista dele, mais ou menos na época, contando como o filme foi escrito e rodado, em:
http://www.youtube.com/watch?v=M2oGSkEpyEc

A QUESTÃO HUMANA (Nicolas Klotz, 2007)

Ok, primeiro as credenciais. O filme ganhou o prêmio de Melhor Filme pela crítica na Mostra SP de Cinema em 2007, Melhor Ator e Melhor Direção de Arte no Festival de Gijón (e se as informações estiverem erradas, desculpem a belezinha que anota tudo correndo pra contar depois e não entende a própria letra).

Tá. Agora o criticável (quero deixar o melhor pro final): você vai identificar muitas questões que o cara quis dar conta numa única tacada (longa tacada de 140 minutos), algumas delas tratadas assim bem en passant. Eu me confundo, e prefiro um assunto pesado de cada vez, melhor explicado, mas vamos lá, nem por isso o Klotz se perdeu.

Agora, a Questão Humana é um filme sério, de verdade, e pesado, mas é um filme bom, bom tipo ótimo, bom daqueles que não pode perder. Uma das direções de arte que mais contribuem pro argumento e pro espírito do filme que já vi, ever. A tomada inicial (a cena no banheiro) explica, claro que de maneira bem poética, quase que o filme inteiro. Quase. Por que além das questões "firma" que todo coitado que bate cartão, tem que paparicar o diretor e fazer entrevista com o gerente de RH, como eu, conhece, o filme vai caminhando pra coisas muito mais escondidas, profundas e complicadas.

Acho lindo o jogo de palavras entre problema e questão, e aliás, esse cuidado com a escolha dos termos (também a coisa da linguagem técnica versus o sofrimento humano) é uma das coisas mais originais e brilhantes do filme, pena que só vai aparecer mais pro final. Mas a "palavra" não aparece só assim, difícil e cabeça. Nota mil pra cena no barzinho onde eles assitem um cantor de fado e outro daquelas canções espanholas que até o mais gélido dos imparciais se arrepia, como quem diz que a palavra também proporciona essas maravilhas.

Não esqueço a maneira como o diretor resolve os minutos finais do filme (ai que vontade de contar como é). Não esqueço a interpretação incrível do Mathieu Amalric, que vai se desmantelando no decorrer dos acontecimentos. Não esqueço o perfume meio noir e sombrio da fotografia, que por si só já vale o tempo e o dindin do aluguel do DVD.

Só pra avisar, vai acabar triste, ok? Mas eu veria de novo, mesmo assim, mil vezes.

EDUCAÇÃO (Lone Scherfig, 2009)

Pra começar, se você não se identifica, mesmo que só um pouquinho, com a moçoila caga-regra que tem vontade de transgredir (sei lá o quê, qualquer coisa), com a sedução do cara bem mais velho, com Paris como o lugar onde tudo acontece, e em francês, o que é melhor ainda, então muito do apelo desse filme vai perder o sentido.

Maaaas, se você for uma criatura humana desse planeta, de um jeito ou de outro já passou por apuros mais ou menos parecidos pelos quais passa nossa querida heroína Jenny (Carey Mulligan, absolutamente fofa no papel).

A Lone Scherfig é uma das integrantes do movimento Dogma (do Lars von Trier, Dogville, bem, vocês lembram). Libertária, formação nada a ver com a chatice londrina que retrata, se baseou num livro (esse sim, de memórias) da Lynn Barber, que pra quem gosta de ler o livro depois de ver o filme, o que não é at all meu caso, deve valer a pena.

O filme concorreu a zil categorias no Oscar (inclusive melhor filme, exagero) mas não levou nenhuma. Mas já que somos pessoinhas bem subversivas que não damos a menor bola pras estatuetas, eu veria, assim, num domingão, num sabadão à tarde ou coisa do gênero.

Interpretações ótimas, envolventes e convincentes. Londres numa época que vale a pena o retrato. Dúvidas existenciais que todos já tivemos (ou ainda temos). Fim que todos já esperamos, apesar da esperancinha de ser diferente dessa vez.

Se eu escrever mais uma linha, vou contar o fim do filme!

UM HOMEM SÉRIO (irmãos Cohen, 2009)

Olha, pelo cinema dividido entre riso e silêncio nas melhores piadas, acho que não é um filme pra todos os gostos, mas eu adorei, e ri a beça. Nossos amiguinhos irmãos Cohen concorreram a dois Oscar esse ano (inclusive melhor filme) e não ganharam nenhum, o que não me admira, porque certamente esse humor negríssimo e sofisticado não é mesmo a cara da "academia" (não é chique saber os jargões, gente?).

Bom, vocês já viram os Cohen em Onde os Fracos Não Têm Vez e Queime Depois de Ler. Dessa vez, os bonitos resolveram levar todas as questões do divã pra telona, uma vez que o filme é quase uma auto-biografia judia hilária. Confesso que gosto mais deles tirando sarro do que sendo violentos, cruéis e inconclusivos (quem conseguiu dormir depois de ver aquele personagem do Javier Bardem, peloamordedeus).

Mais uma vez, eles escrevem e dirigem o filme, e mesmo não sendo entendida, juro que adoro esses casos, não há quem negue que são filmes pelo menos mais consistentes.

Que mais além de bom roteiro, boa direção e boa trilha? Fotografia fantástica e direção de arte fodíssimas, num limite bem cuidado entre caricato engraçado e brega exagerado. Os dilemas morais e existenciais que os rabinos não conseguem responder. (Um deles, pasmem, morram de rir, o Howard do The Big Bang Theory). A judia desviando dinheirinho do pai pra fazer uma plástica (no nariz, no nariz!). O moleque chapadesebésimo no bar mitzva. Ai, e muitas outras, mas não vou contar porque vou estragar sua experiência mais do que já estraguei até agora!

Gosto desses filmes de sátira do homem comum, com uma pitada de bom senso pra não virar a-vida-como-ela-é e você ter que sair do cinema deprê. Gosto de filme que não tem exatamente fim, porque imagino o quão difícil deve ser terminar bem uma história (eu não consigo terminar bem um post de blog) sem ter que apelar pra fórmulas mágicas e melodramas. Muita gente não gostou justamente porque o filme "não acaba". Ai, gente, sério. Deixemos os fins apoteóticos pra novela da globo!