terça-feira, 2 de novembro de 2010

O GAROTO DE LIVERPOOL (Sam Taylor Wood, 2010)

É muito difícil esperar de uma beatleira (dizer beatlemaníaco anda tão pedante hoje em dia, não?) num mês em que John faria 70 e Paul vem pra cá fazer shows depois de 17 anos (pista prime na mão) distanciamento necessário pra dizer algo imparcial de O Garoto de Liverpool. Mas vai lá.

Mesmo sabendo que é um erro estratégico ver filmes na Mostra que em 2 ou 3 meses estarão em circuito, e perder coisas bacanas que nunca virão pra cá, nem em DVD, não agüentei o faniquito de esperar até dezembro e comprei meus ingressinhos pra sessão da meia-noite, na sexta, primeiro dia da maratona.

A Sam Taylor Wood estréia na ficção com esse filme bonitinho que mostra um pedaço da vida do Lennon “precursora” de tudo o que vai acontecer depois: a adolescência meio rebelde, a morte do tio, o reencontro com a mãe, a descoberta de Elvis, a descoberta do rock, as bandas, a mulherada e por aí vai. Uma história sem nenhuma grande novidade, mas desce muito bem contada de um jeito assim delicado, bem filmada e com uma trilha deliciosa (poucas músicas dos Beatles, pra quem vai atrás disso é melhor ouvir em casa).

Pra mim o detalhe que faz toda a diferença no filme é o fato que o John conhece e convive bastante tempo com a mãe, Julia, nossa anti-heroína sea-shell-eyes-windy-smile charmosa, libertária, problemática e que, de acordo com o roteiro, é quem de fato enfia a música e o rock cuca a dentro dele. Juro que não sabia ou não lembrava, e na minha história imaginária dos Beatles e do John, toda vez que ele cantava you had me but i never had you, estávamos falando de um molecote de 6 anos que levou um pé na bunda de mami e nunca mais a viu!

Em torno desse nó gira o filme todo, e se você já sabe o que acontece, ótimo, porque não vou contar e estragar o prazer dos que não sabem!

Também nesse meio tempo, aparece Paul na vida de John. Um é maluco, charmosão, farrista, metido a besta. O outro é certinho, magricela, nerd e só quer saber de música. Brigam feito cão e gato, mas se completam. E todo mundo sabe o resto da história.

O Aaron Johnson como John está uma doçura, apesar de muita gente achar que falta um pouco mais de rebeldia e excentricidade, mas vá lá, está no tom do filme, e eu adorei. Thomas Sangster faz um Paul preciso, esquisitinho e adorável, Anne Marie Duff é uma Julia tão charmosa e perturbada que você nem fica mais tão puto por ela ter feito tanta lambança e a Kristin Scott Thomas, impecável como a durona mas fofa tia Mimi que nunca saiu do coração do John.

Pros fanáticos das biografias, o filme foi baseado no livro da irmã do Lennon, Julia Baird, Imagine This: Growing Up with my Brother John Lennon.

Eu adoro filme que pega uma história real polêmica e cheia de capítulos e trata assim, com discrição. Aí a gente pode continuar pensando nela, do nosso jeito.

terça-feira, 27 de julho de 2010

O CINEMA VAI À MESA


Ganhei um presente de aniversário esse ano que foi dos mais legais, de uma grande amiga que sabe que, mesmo que o meu faniquito culinário passe tão depressa quanto chegou, não vale a pena deixar passar a piada.

"O cinema vai à mesa" é um livro escrito a duas mãos, pelo Rubens Ewald Filho (para a galerinha rata de cinema, um velho conhecido) e pela Nilu Lebert, jornalista (que trata principalmente de gastronomia).

A idéia é deliciosa: eles listam uma série de filmes que falam sobre comida, ou têm a ver com esse universo de alguma maneira, ou são descaradamente sobre culinária, ou têm um jantar especialmente marcante, enfim. Uma coleção bacana de chefs ensinam as receitas inesquecíveis dessas cenas, com listinha de ingredientes e tudo, explicando tintin por tintin, pras mirins como eu. E pra cada filme, uma resenha também gostosa, dessas que a gente adora ler - quando o crítico realmente gosta do filme.

O menu é de dar água da boca, vou falar só alguns: Dona Flor e Seus Dois Maridos, A Festa de Babette, Como Água para Chocolate, O Amor está na mesa (um amor antigo, que não saiu em DVD no Brasil, absurdo!), Vatel, Volver, O Tempero da Vida e outros.

E a preguiça de digitar 1 parágrafo não vai ser maior do que a tentação de dar uma amostrinha do texto deles, pra abrir o apetite:

"São três os grandes prazeres da vida: comida, sexo e, é claro, cinema. E não necessariamente nessa ordem. Mas, dos três, o cinema é o único que pode conter os outros dois, além de incontáveis outros sentimentos, temas e experiências servidos numa única bandeja: a tela."

Fico devendo uma sessão quando conseguir fazer uma receita decentemente!

sexta-feira, 28 de maio de 2010

UMA AMIZADE SEM FRONTEIRAS (François Dupeyron, 2003)

A infeliz tradução do título (Monsieur Ibrahim, no original) pode fazer você desviar dessa pérola na prateleira da 2001. Não o faça.

Possivelmente a melhor atuação do Omar Shariff, que apesar de muito bonitão e com aquela presença toda que conhecemos, nunca convenceu muito os críticos e cinéfilos mais chatinhos.

A história é mais ou menos simples, mas talvez por isso, como geralmente são os filmes despretensiosos que a gente ama, seja tão envolvente. Momo (Pierre Boulanger) é um molecote judeu, que mora com o pai absolutamente deprê num beco em Paris rodeado de prostitutas, se virando nos trinta pra conseguir espremer o dinheirinho que o pai dá. O lindinho do Boulanger ganhou o prêmio de melhor ator no festival de Chicago, e não sem merecer. Quem não saiu do cinema com o coração derretido, completamente envolvido nas aventuras do adolescente começando a vida adulta aos trancos e barrancos, bom sujeito não é. Nota mil pro fofo, que só não rouba a cena porque o Shariff, na pele do monsieur Ibrahim, um turco sufi dono do mercadinho árabe, engraçado e poético, está um arraso. Adoro as frases de efeito, os conselhos profundos, que ele consegue dar com humor e um pouquinho de deboche. Fica uma delícia.

Aí você já sabe, o pai é relapso, o turco é solitário, o menino precisa de apoio, a amizade dos dois vai crescendo, e você já nem sabe mais quem é que no fundo está ajudando quem. O final é um pouquinho melancólico e óbvio, nada que tire a graça da história, de maneira alguma.

Ah, e a trilha sonora é um deleite, pra gravar e tocar em casa em dias de faxina, domingos chuvosos e manhãs tristinhas. Levanta qualquer humor caído!

Além do prêmio do Boulanger, o filme foi indicado ao Globo de Ouro e ao Goya, e o Omar Sharif ganhou o César de melhor ator e prêmio do público como melhor ator no Festival de Veneza.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

O SEGREDO DE SEUS OLHOS (Juan José Campanella, 2009)

Ok que todo mundo já sabe, mas posso falar de novo? Filmaço esse do Juan José Campanella (O Filho da Noiva), baseado no livro do Eduardo Sacheri (A pergunta de seus olhos), que tomou o Oscar das mãos do favorito A Fita Branca, arrasou em bilheteria na Argentina e deixou todo latino-americano um pouquinho mais orgulhoso.

O filme conta a história de um ex-defensor público (Ricardo Darín, inesquecível), que não consegue esquecer um crime que aconteceu há 25 anos e, bem, ele não consegue esquecer muitas outras coisas também, mas aí você vai ter que assisitir, que eu sou estraga-prazer mas nem tanto.

Além de ser bem filmado, bem montado, bem escrito, da fotografia ser absurda, do figurino, maquiagem e ambitação serem mega bem cuidados, vale ouro ver uma história tão densa e bem contada com nosso gosto (tô misturando a gente com os argentinos, tá), a burocracia monstra, a ditadura, a paixão pelo futebol (pros entendidos, que não é meu caso, num plano-sequência que tá todo mundo atrás do Campanella pra descobrir como foi feito), a graça do politicamente incorreto, o companheiro do Benjamín que bebe mais que motor de carro véio (mas que tem a sacada genial de lembrar que a gente pode mudar tudo, nome, casa, cidade, menos nossas paixões).

Mas lindo mesmo, como diz o título, é o segredo dos olhos que nunca trai o que sentimos, mesmo quando falamos exatamente o contrário. E com essa pulga atrás da orelha, o Benjamín vai juntando as peças do assassinato (e suas consequências), e, óbvio, juntando as peças da própria vida dele também. Porque O Segredo dos Seus Olhos também é um filme sobre os fantasmas que ficam guardados (às vezes, literalmente) e aí, meu amigo, só indo até o fim pra exorcisar.

Nossos hermanos não jogam lá muita bola (hehe), mas fazem um cinema que meu-deus. Se perdeu no cinema, já deixa reservado na 2001 pra não esquecer quando sair em DVD, tá?

A ILHA DO MEDO (Martin Scorsese, 2009)

Corro o risco de levar ovada, mas vou falar. Em algum momento da minha vida de cinéfila, decidi, quando não consegui passar do décimo quinto minuto de Kill Bill, que nunca mais assistiria Tarantino, por mais que o cara seja fodíssimo, por mais que os filmes sejam imperdíveis, originais e incríveis. E nunca mais assisti. Leio todas as resenhas, torço por ele quando os filmes são indicados, mas não assisto. Ué, gente, cada doido tem sua mania.

Depois de ver a Ilha do Medo, decidi a mesma coisa com o Scorsese. Já vinha meio de bode dos Inflitrados, (mesmo tendo achado O Aviador incrível) e a real é que não aguento essa violência filmada nos mínimos detalhes beirando o mau-gosto, não aguento esse terrorismo psicológico e me reservo o direito de não ter que aguentar!

Pronto, falei.

Agora. Não dá pra negar que o Scorsese sabe como ninguém fazer referências entre gêneros e autores e ainda levar com o seu próprio estilo. Você fica tentando definir o que extamente faz parecer um pouco Hitchcock, um pouco Lynch, um pouco filme B, mas não consegue, porque ele vai misturando tudo e criando um clima de suspense daqueles que você fica um pouco sem respirar mesmo, do começo ao fim.

Leonardo di Caprio está bem, Mark Rufallo está ok. Eliminaria os efeitos especiais, tipo quando a ex-mulher aparece nas alucinações, uns diálogos fake-melodrama, mas, vá lá, isso é bem pessoal.

Fiquei também um pouquinho frustrada porque achei meio parecido com a Janela Secreta, com o Johny Depp (não lembro o ano, mas o google lembra), baseado num livro do Stephen King, mas adimito que minha cultura suspense-terror-psicológico é pífia, então, bem, não devo ser parâmetro pra muita coisa nesse campo!

Então é isso, pessoal, com todo o respeito do meu coração, Scorsese a partir de agora só via trailer, resenha e relatos, todos bem-vindos!

domingo, 4 de abril de 2010

O CASTELO DE MINHA MÃE (Yves Robert, 1990)

O Castelo de Minha Mãe é continuação de A Glória de Meu Pai (impossível encontrar o DVD, aceito empréstimos), ambos adaptações dos livros auto-biográficos de mesmo nome, do Marcel Pagnol, escritor membro da Academia Francesa de Letras e também dramaturgo e diretor.

Filme doce e ensolarado, daqueles que dá vontade de ser criança mais uma vez (de preferência na França), conta do jeito mais fofo que você possa imaginar a saga de um molecote que se apaixona pelo campo depois de passar as férias em Provence e a partir daí não consegue pensar em outra coisa. Mãe e o pai inventam o diabo pra poder passar os feriados e (depois de muito custo) os finais de semana na casa de campo, e nem vou começar a falar dos artifícios que eles têm que usar, senão acabo com o filme em uma linha.

Em vários pedaços, dá vontade de pedir pro diretor contar mais um pouquinho, mas ainda bem que tem o livro pra gente saber mais da princesinha mean que faz nosso herói se passar por cachorrinho (literalmente, é ótimo!).

O filme é uma doçura sem fim, a fotografia é um amor, as personagens são apaixonantes, as atuações são ótimas, é bem-humorado na hora certa, tristinho no tom e com final de dar frio na barriga. Quanto tempo faz que você não vê um filme assim?

Taí que adoro quando me indicam um filme e o filme é bom! Thierry, merci!

EDIFÍCIO MASTER (Eduardo Coutinho, 2002)

Um prédio meio decadente em Copacabana, que já foi perigoso, boca-do-lixo e mal frequentado. 276 apartamentos (conjugados apertadinhos) e uns 500 moradores dividindo aqueles corredores escuros que parecem mais com um hospital estranho do que com os prédios novinhos e assépticos de hoje em dia. Um documentário estilo liga a câmera, conduz a entrevista e deixa a pessoa falar o que quiser. Já dá mais ou menos pra imaginar o que vamos ver, né?

Isso mesmo, uma miscelânea de tipos mega diferentes (tem garota de programa, senhorinha aposentada, poetisa, menina que veio do interior fazer vestibular, ex-jogador de futebol). Isso mesmo, eles lá sentadinhos, cada um na sua casa, bem arrumadinhos pra entrevista, falando pelos cotovelos, com a condução do Coutinho e equipe.

Confesso que me deu um pouco de preguiça a falta de roteiro (são zil depoimentos, tem que ter paciência e ver cada um sem esperar grandes evoluções, explicações ou conexões). Mas, bem, essa é a graça do filme, é isso o que você vai ver e quem diabos precisa de fricotes de edição, grandes efeitos ou coisa que o valha quando alguém, tão de carne e osso que até dói, abre o coração na frente da câmera e conta a história da vida, se emociona, ri, filosofa.

Às vezes parece um tantinho melodramático, até porque as pessoas já foram entrevistadas previamente e sabem mais ou menos o que dizer na hora. Por isso, gostei bastante dos extras, que são as entrevistas prévias, resultado da pesquisa da equipe nas 3 semanas que antecederam a filmagem (eles alugaram um apê e moraram lá um mês). Se, por um lado, o material é mais cru e as conversas mais desarticuladas, sem dúvida tem o frescor da falta de pose e da naturalidade das pessoas que nem sabiam que aquilo ia virar um filme.

O Eduardo Coutinho é um dos documentaristas mais importantes do Brasil, tem uns 15 filmes nas costas, entre eles Cabra Marcado para Morrer, Dona Flor e seus Dois Maridos (roteiro) e Jogo de Cena, de 2007, que não vi ainda mas tem toda a pinta de ser bem parecido com o Edifício Master.

Legal pra fase documentário da vida, mas podia ser (não sei como, juro) uma tica mais envolvente.